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Lula admite erros de Dilma, corrupção na Petrobras, chama 'orçamento secreto' de 'escárnio' e defende 'pacificar o país'; veja a entrevista

Fonte: G1 - Em Eleições 2022 - 25/08/2022 08:36:00 hrs

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 Lula admite erros de Dilma, corrupção na Petrobras, chama
Reprodução

O ex-presidente e candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, admitiu nesta quinta-feira (25), em entrevista ao Jornal Nacional, erros da ex-presidente Dilma Rousseff na economia. Ele ainda chamou o orçamento secreto de "escárnio" e disse que quer pacificar o país.

Lula é o terceiro candidato a ser entrevistado nesta semana pelo JN. Na segunda-feira (22) foi o presidente Jair Bolsonaro (PL); na terça (23), o candidato Ciro Gomes (PDT). Nesta sexta-feira (26) será a vez de Simone Tebet (MDB).

Foram convidados os cinco candidatos mais bem colocados na pesquisa divulgada pelo Datafolha em 28 de julho. André Janones (Avante), que estava entre os cinco, retirou a candidatura.

Um sorteio realizado em 1º de agosto com representantes dos partidos definiu as datas e a ordem das entrevistas.

Veja a íntegra da entrevista:

Corrupção na Petrobras

Logo no início da entrevista, Lula foi questionado sobre casos de corrupção na Petrobras durante governos petistas, investigados pela Operação Lava Jato. Lula disse que não pode dizer que não houve corrupção, uma vez que envolvidos confessaram.

"Deixa eu te falar uma coisa, você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram", disse Lula.

Na sequência, ele criticou o fato de delatores terem tido penas e sanções reduzidas.

"O que é mais grave é que as pessoas confessaram e, por conta das pessoas confessarem ficaram ricos por conta de confessar. Ou seja, foi uma espécie de uma delação premiada, você não só ganhava liberdade, por falar o que queria o Ministério Público como você ganhava metade do que você roubou, ou seja, o roubo foi oficializado pelo Ministério Público, o que eu acho uma insanidade e uma aberração com esse país. Ou seja, o correto era você fazer a investigação que tinha que fazer, da forma mais correta possível como se deram no meu tempo em que eu era presidente. E depois se a pessoa for inocente você absolve, se a pessoa for culpada você condena", prosseguiu Lula.

O ex-presidente também falou sobre o Mensalão e a Lava Jato.

"Em 2005, quando surgiu a questão do Mensalão, eu cheguei e disse o seguinte: 'só existe uma de alguém não ser investigado nesse país: é não cometer erro'. Se cometer erro, vai ser investigado. E foi isso que nós fizemos. Se alguém comete um erro, alguém comete um delito, investiga-se, apura, julga, condena ou absolve e tá resolvido o problema. O que foi o equívoco da Lava Jato? É que a Lava Jato enveredou para um caminho político delicado. A Lava Jato ultrapassou o limite da investigação e entrou no limite da política. E o objetivo era o Lula. O objetivo era tentar condenar o Lula."

"Não sei se você está lembrado, no primeiro depoimento que eu fui dar ao Moro, eu falei 'Moro, você está condenado a me condenar porque você já permitiu que a mentira foi longe demais."

"Qualquer, qualquer hipótese de alguém cometer qualquer crime, por menor ou por maior que seja, essa pessoa será investigada, essa pessoa será julgada e essa pessoa será punida ou absolvida. É assim que você combate a corrupção num país."

'Pacificar o país'

Lula falou sobre pacificar o país quando foi questionado sobre MST. Ao dizer que o MST não é mais o mesmo de 30 anos atrás, ele emendou com uma fala de que fazendeiros apoiam Bolsonaro porque o presidente está facilitando acesso a armas de fogo no campo.

Mas, segundo Lula, arma não é a solução. Foi quando ele disse que quer pacificar o país.

"O MST está fazendo uma coisa extraordinária, está cuidando de produzir, não sei se você sabe, o MST hoje tem várias cooperativas, o MST é o maior produtor de orgânicos do Brasil você tem que visitar uma cooperativa do MST, Renata, você vai ver que aquele MST de 30 anos atrás não existe mais. Agora, o Bolsonaro está ganhando o fazendeiro porque está liberando arma, tem gente que acha que é bom ter arma em casa, que acha que é bom matar alguém, não, o que nós queremos é pacificar esse país", disse Lula.

Erros da gestão de Dilma Rousseff

Outro tema da entrevista foi a economia. Lula foi questionado se, caso eleito, adotará políticas econômicas do seu governo ou as do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, sua aliada e sucessora. Nos úlitmos anos da gestão de Dilma, o país viveu uma forte crise econômica.

Lula reconheceu erros do governo de sua aliada. Ele citou a "questão da gasolina", em referência ao fato de Dilma ter segurado artificialmente os preços. Ele também criticou as desonerações para o setor produtivo concedidas pela ex-presidente.

"Eu acho que a Dilma cometeu equívoco na questão da gasolina, ela sabe que eu penso isso. Acho que cometeram equívoco na hora que fizeram R$ 540 bilhões de desoneração e isenção fiscal de 2011 a 2014", refletiu Lula.

Mais de uma vez o ex-presidente foi questionado se implementaria as políticas econômicas de seus mandatos ou se basearia nas opiniões do PT que orientaram Dilma. O candidato não respondeu diretamente – mas afirmou que quer "fazer melhor do que fez".

"A minha obsessão, um homem de 76 anos que diz todo dia que tem energia de 30, de voltar a governar esse país é porque eu acho que é possível recuperar esse país, a economia voltar a crescer, a gerar empregos, a gerar melhoria nas condições de vida da pessoa", declarou.

O candidato do PT foi, então, confrontado com números da recessão que atingiu o Brasil no segundo governo Dilma – inflação de 10,6% e retração do PIB de 3,5% em 2015. Como resposta, disse que a aliança construída na campanha dará o tom da gestão.

"[Vou] Fazer uma gestão de acordo com aquilo que nós construímos. Eu hoje tenho 10 partidos junto comigo, e ainda tenho a experiência do ex-governador Alckmin comigo. Muita gente pensava um ano atrás que era impossível o Lula se juntar com Alckmin. E eu me juntei para dar uma demonstração para a sociedade brasileira, que política não tem que ter ódio. Política é a coisa mais extraordinária para você estabelecer convivência entre os contrários", afirmou.

Orçamento secreto

Outro tema tratado na entrevista foi o orçamento secreto. Lula chamou a prática de "escárnio".

"Hoje não é só o presidente da república, não. Os governadores do estado estão refém dessas emendas secretas também. Porque antigamente o deputado ia conversar com o governador pra fazer a aplicação de verba. Hoje os deputados não conversam mais. Tem deputado liberando duzentos milhão, cento e cinquenta milhões, cem milhões. Isso é um escárnio. Isso não é democracia", argumentou Lula.

"Não é moeda de troca, isso aqui é uma usurpação do poder. Ou seja, acabou o presidencialismo, o Bolsonaro não manda nada, o Bolsonaro é refém do Congresso Nacional, o Bolsonaro sequer cuida do orçamento. O orçamento quem cuida é o Lira, ele quem libera a verba, o ministro liga pra ele, não liga para o Presidente da República. Isso nunca aconteceu desde a Proclamação da República", afirmou o candidato.

"O Bolsonaro parece o bobo da corte. Ele não coordena o orçamento", disse Lula.

Quando questionado por Renata Vasconcellos se ele acredita que será capaz de convencer o congresso a renunciar a um mecanismo que dá amplo poder aos parlamentares, Lula respondeu:

"Vamos. Durante a campanha você vai perceber que vou trabalhar muito essa questão [...] Nós vamos resolver conversando com os deputados. Espero que a sociedade brasileira aprenda nessas eleições uma lição muito grande: o Congresso Nacional é o resultado da sua consciência política no dia das eleições. Então quando você for votar, coloque esperança, coloque otimismo, não coloque rancor na urna, porque não dá certo".

Polarização x estímulo ao ódio

Lula foi questionado sobre o discurso do "nós contra eles" que, ao longo dos governos do PT, alimentou uma forte polarização entre direita e esquerda e resultou em episódios de violência entre militantes dos dois grupos.Como resposta, Lula disse que a polarização é saudável e que nunca tratou os opositores do PSDB, à época, como inimigos.

Ele afirmou ainda que polarização é diferente de "estímulo ao ódio".

"Feliz era o Brasil e a democracia brasileira quando a polarização nesse país era entre PT e PSDB. A gente era adversário político, a gente trocava farpas, mas a gente se encontrava num restaurante e eu não tinha nenhum problema de tomar uma cerveja com o Fernando Henrique Cardoso, com o José Serra ou com o Alckmin. Porque a gente não se tratava como inimigo, a gente se tratava como adversário", disse.

O candidato do PT comparou a militância política com "torcidas organizadas" para dizer que os episódios de violência foram isolados, e que o discurso de "nós contra eles" não estimulava a agressão.

"Quando você tem democracia e quando você tem mais que um disputando, a polarização é saudável. Ela é importante, ela é estimulante, ela faz a militância ir pra rua, carregar bandeira. O que é importante é que a gente não confunda a polarização com o estímulo ao ódio. Eu me dou muito bem com o PSDB, que foi meu principal adversário durante tanto tempo", disse.

"Tem uma frase do Paulo Freire que é fantástica, que eu utilizei para mostrar aos militantes do PT a entrada de Alckmin no PT. 'De vez em quando, a gente precisa estar junto com os divergentes para vencer os antagônicos'. E agora, nós precisamos vencer o antagonismo do fascismo, da ultradireita", prosseguiu.

'Eu não quero procurador leal a mim'

Na entrevista, Lula foi perguntado sobre a indicação de um futuro procurador-geral da República, cargo exercido pelo chefe do Ministério Público e responsável por investigações contra o chefe do Executivo. 

Lula respondeu que sempre valorizou o MP e a Polícia Federal, mas não prometeu respeitar a lista tríplice de indicação para escolher o PGR. 

"Eu não quero procurador leal a mim. O procurador tem que ser leal ao povo brasileiro, ele tem que ser leal à instituição [...]. Para mim, o que precisa é dar segurança para o povo, como eu dei quando era presidente", disse o candidato.

Em seus governos, Lula indicou o primeiro colocado na lista tríplice formada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). O atual procurador-geral do governo de Jair Bolsonaro (PL), Augusto Aras, foi escolhido fora da lista tríplice. Nem Lula nem Bolsonaro eram obrigados por lei a indicar nomes dentro da lista tríplice da associação.

Na sabatina, o petista disse que não quer amigos em instituições, como o MP ou a PF, mas, sim, "pessoas sérias, responsáveis que falem em nome das instituições". "Porque as instituições que garantam o funcionamento da democracia têm que ser forte." Citou como exemplo a ação contra um de seus irmãos, em 2005.

"Eu poderia ter escolhido um Procurador engavetador. Sabe aquele amigo que você escolhe e que nenhum processo vai pra frente? Eu poderia ter feito isso e não fiz. Eu escolhi da lista tríplice. Eu poderia ter impedido que a Polícia Federal tivesse um delegado que eu pudesse controlá-lo. Não fiz. E permiti que as coisas efetivamente acontecessem do jeito que precisava acontecer."

"Você se lembra que, em 2005, eu estava na Índia, [e] a Polícia Federal foi na casa de um irmão meu, esse que morreu enquanto eu estava preso. Esse cara ganhava R$ 2,9 mil, aposentado na prefeitura. A Polícia Federal invadiu a casa dele. E eu sabia antes e falei: 'não vou interferir'. Porque quem ficou sabendo não é o Lula, foi o presidente da República. Ela [a PF] que cumpra com as suas funções", afirmou o ex-presidente.
 
Em seguida, o petista atacou o presidente Bolsonaro e o acusou de interferir na PF. "O Bolsonaro troca qualquer diretor a hora que ele quer, basta que ele não goste. E eu não fiz isso e não vou fazer. O delegado não está lá para fazer as coisas que eu quero".

Alckmin como vice

Ao ser questionado sobre a recusa de parte da militância petista em aceitar a escolha do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB) como candidato a vice-presidente, Lula disse que o paulista foi aceito de “corpo e alma” pelo PT.

“O que eu não quero é que o PT peça pra ele se filiar, porque a gente não quer brigar com o PSB”, afirmou.

“Eu estou até com ciúmes do Alckmin. Você tem que ver que sujeito esperto. Ele fez um discurso no dia 7 de maio, sabe, quando ele foi apresentado oficialmente ao PT, que eu fiquei com inveja. Ele foi aplaudido de pé. Pergunta pra esposa dele pra dona Lu, que anda com a Janja, para ver o como ela está gostando da coisa. O Alckmin já foi aceito pelo PT de corpo e alma”, declarou.

Segundo ele, se eleito, Geraldo Alckmin vai “ajudar”. “Eu tenho 100% de confiança que a experiência dele como governador de São Paulo e depois de mais seis anos como vice do Mário Covas vai me ajudar a consertar esse país”, disse.

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