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Geral
Fonte: Neri de Paula Carneiro - Em Geral - 20/07/2018 01:10:00 hrs
Lembra daquela cantiga de roda: “Se esta rua, se esta rua fosse minha. Eu mandava, eu mandava ladrilhar. Com ladrilhos, com ladrilhos de brilhante. Só para, só para meu bem passar”?
Não lembra? É compreensível. Os valores do nosso folclore estão se perdendo na penumbra do esquecimento e nas dobras da correria cotidiana.
Mas não se entristeça. Tem gente aí do seu lado que lembra. Cantou e brincou de roda. “Ciranda cirandinha”, “Terezinha de Jesus”... Brincou, também, na rua: “Pé na lata”, “31” e outras modalidades de “Esconde, esconde”. Particularmente gostava do: “Balança caixão. Balança você. Dá um tapa na bunda e vai se esconder”. Essas e outras eram nossas brincadeiras de criança. Na rua ou nos terreiros brincava-se de quase morrer de cansaço.
Nos terreiros da zona rural a criançada se reunia à noite, para desafiar o cansaço do longo dia de trabalho... as crianças também trabalhavam. Na cidade a criançada era dona da rua até que os pais começavam a chamar para “banhar”, fazer tarefas e se preparar para repetir tudo no outro dia.
Hoje quase não se reconhecem os terreiros. E nas ruas, ai meu Deus!, ninguém mais se arrisca: por conta do perigo dos assaltos e dos bandidos e dos carros que atropelam em alta velocidade; e por que os brinquedos tecnológicos embotaram as mentes e as articulações e os músculos... A rua é território hostil: Zona de guerra!!! e as tradições estão perdendo se perdendo...
Das ruas de hoje só nos chegam notícias alarmantes: Perigo de assalto, trânsito louco, sujeira e poluição... e o poder público, quando não é omisso, é impotente. A rua, se tem alguma beleza, está na memória de quem ainda se arrisca a recordar... ou se algum louco...
E sempre tem um louco! Poucos, mas eles existem. Nem que seja para dizer, com sua vida e persistência, que nossa loucura é maior que a deles: não acreditamos em nossos sonhos e nem realizamos os projetos que nos embalam. Algo que os loucos fazem sempre. Nós, quase sempre, apenas os criticamos pelas loucuras. Mas eles, independentemente disso, estão na vanguarda.
Olhe, novamente, para a rua! Sabe aquele sonho no qual a rua é um ambiente seguro? Um ambiente feliz? Um ambiente em que florescem não só os sonhos, mas as plantas ali plantadas? E uma das faces desse sonho é que o poder público tome a iniciativa de embelezar o ambiente. Cuidar dos canteiros e das árvores e das flores e da limpeza e da segurança e de tudo que faz bem para todos que moram nas margens da rua e de todos que transitam no leito preto do asfalto da rua.
O que vemos, entretanto, é o contrário. O poder público arranca as árvores e planta concreto. E a cidade, em vez de mais bela, fica mais quente. Nesse ponto da conversa é que aparecem os loucos. E fazem pequenos gestos: Pequenos enquanto ato realizado, mas imensos em sua significação e na beleza que produz.
Belo é ver que esses loucos fazem aquilo que todos deveríamos fazer para preservar e embelezar. Triste é ver que aquilo que o poder público deveria fazer por dever, omite-se de realizar. Belo é ver que os loucos plantam jardins de flores loucas que crescem sobrepondo-se à inoperância dos homens dos gabinetes e seus planos mirabolantes. Triste é ver que os homens do poder público tiram proveito político das boas obras dos loucos.
Mas de qual loucura estamos aqui falando?
Daquilo que a professora aposentada decidiu fazer, não para aparecer, nem para impressionar, nem para ser divulgado... Fez porque acredita na beleza! E então plantou um jardim. Ela cansou de ver suja sua rua. Ela queria as flores florindo, como quem sorri para o futuro. E sua casa, que mora na margem da rua que mora em frente a uma prisão decidiu: “minha rua será florida!” E deu fim aos entulhos e arrumou terra fértil e procurou sementes e mudas de plantas e plantou e regou e até os representantes do poder público a elogiaram. Não pelo que ela fez mas porque ela fez o que eles não realizam.
E a Cidinha já tem discípulos. Seguidores que a estão ajudando. Seguidores que desejam multiplicar sua iniciativa. Até a escola, de onde ela saiu aposentada, pediu ajuda. É que as ideias loucas movem o mundo. Quer disseminar essa loucura? Fale com a Cidinha!!!
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