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Anatel considera ''indesejável e imprudente'' construção de usina que pode afetar a internet e deixar o Brasil ''off line''; entenda o caso

Fonte: g1 - Em Tecnologia - 22/12/2023 10:17:00 hrs

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Anatel considera
Construção de usina de dessalinização pode afetar internet no Brasil -- Reprodução/Segace

O projeto da construção de uma usina de dessalinização -- transformar água do mar em água potável -- na Praia do Futuro, em Fortaleza (CE), voltou a gerar polêmica esta semana após a Superintendência do Patrimônio da União (SPU-CE) aprovar o início das obras na última quarta-feira (20).

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e as operadoras de internet do país questionam a obra por entenderem que ela pode romper cabos de fibra ótica submarinos e que passam no mesmo lugar onde está previsto a construção da usina na capital cearense, o que pode impactar no serviço de internet no Brasil.

A Anatel classificou a construção da usina como "indesejável e imprudente" e alega que "existem outras opções para a sua realização".

O órgão afirma ainda que o projeto da SPE - Águas de Fortaleza, responsável pela construção, não considerou riscos e nem seguiu 11 recomendações do International Cable Protection Committee (ICPC), organização que atua para proteger o funcionamento de cabos submarinos.

O g1 perguntou à Anatel e ao ICPC quais são as recomendações, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Caso siga sem interferências, o projeto da usina deverá iniciar as obras em março de 2024. A previsão é de que a construção seja concluída no primeiro semestre de 2026. Segundo o governo do Ceará, a oferta de água na região metropolitana de Fortaleza aumentará em 12% com a transformação de água do mar em água potável.

Os riscos apontados pela Anatel

A Anatel diz que "reitera oposição à obra de construção da usina de dessalinização na Praia do Futuro nos termos do atual projeto, e recomenda alteração do projeto de construção para outro local dentre as opções avaliadas como possíveis".

Estes são os pontos citados pela Anatel para reprovação da obra:

- Diversos cabos de fibra ótica submarinos chegam ao Brasil através da Praia do Futuro e são essenciais para o funcionamento de toda telecomunicações e conexão de internet no Brasil e para o fluxo internacional de informações;

- Os cabos de internet estão ancorados há décadas na região, "desde antes da privatização do setor de telecomunicações";

- Falhas nos cabos provocam danos e exigem reparos que têm "atividade lenta e complexa", além de exigir o uso de navios de grande porte, equipamentos subaquáticos e mergulhadores: "A adição de riscos, portanto, é indesejável e imprudente", diz a agência;

- Os cabos tem prazo de validade e, com o aumento constante no tráfego de internet, a tendência é que seja preciso substituir ou incluir mais cabos na região;

- Os responsáveis pela usina não apresentaram "qualquer estudo, previsão, planejamento e detalhamento das medidas que serão adotadas para garantir que os dutos terrestres da usina não provoquem interferências nos cabos".

Anatel considera
Cabos de fribra ótica submarinos -- Reprodução/Vismar UK/Shutterstock

Na quinta-feira (21), a Anatel afirmou ao Jornal Nacional que pediu mais detalhes da obra ao governo do Ceará. O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos disse que a construção segue em análise da União e que depende da avaliação de outros órgãos federais.

Uma usina de dessalinização causa movimentações embaixo do mar em sua operação. Esse processo também pode afetar o funcionamento dos cabos. A usina vai puxar água do assoalho oceânico para tirar o sal. Essa sucção pode alterar o fundo do mar, mudando a topografia da região. E, mudando a topografia, os cabos vão se movimentar, o que também pode causar o rompimento de algum deles, diz o professor de Engenharia da Computação na Universidade Federal do Ceará (UFC) Yuri Victor Lima de Melo.

A importância de Fortaleza para a internet brasileira

A capital cearense se tornou chave para a conexão de cabos de internet por sua proximidade relativa com a Europa, a África e o restante das Américas. A Praia do Futuro recebe 17 cabos de fibra ótica submarinos que conectam o Brasil ao resto do mundo e garantem internet rápida para o país. Segundo a Anatel, esses cabos são responsáveis por 99% do tráfego de dados.

Anatel considera 
Cabos submarinos de internet que chegam ao Brasil por Fortaleza -- Reprodução/Submarine Cable Map

No Brasil, esses cabos também se ligam a Salvador, ao Rio de Janeiro e a Santos. A cidade também ganhou espaço pelas condições de seu relevo oceânico.

"No assoalho oceânico, tem rochas, correntes submarinas, regiões mais profundas e outras mais planas. O assoalho de Fortaleza é favorável. De certa forma, está unindo o útil e o agradável: boa localização e bom assoalho", explicou ao g1 o professor de Engenharia da Computação na Universidade Federal do Ceará (UFC) Yuri Victor Lima de Melo.

Outro fator que contribui para a importância de Fortaleza na área é a presença de grandes empresas de telecomunicações.

"O mercado local de internet no Ceará é muito pujante. No top 10 de maiores provedores de internet do Brasil, tem empresas cearenses ao lado de multinacionais", explica o diretor de tecnologia da empresa de telecomunicações Sage Networks, Thiago Ayub. "A construção da usina não vai ser só um risco temporário, vai ser um risco permanente. Tanto sua construção como sua operação podem fazer danos à infraestrutura de cabos submarinos do lado dela", diz.

O que dizem os outros órgãos

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) diz que a usina "não apresenta nenhum risco ao funcionamento dos cabos submarinos localizados na Praia do Futuro".

Em outubro, a associação de operadoras TelComp, que inclui empresas como a cearense Brisanet, já havia afirmado que "a discussão sobre a construção da usina é legítima e a implementação de tal política pública é necessária", mas alegou que "existem locais mais adequados e seguros para sua instalação" e que a escolha pela construção na Praia do Futuro é "infeliz, inoportuna e inapropriada".

A Conexis, associação onde estão as operadoras Claro, Vivo, Tim, Oi, Algar Telecom e Sercomtel, afirma que suas associadas "manifestam preocupação com os riscos apontados pela área técnica da Anatel".

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