Rolim de Moura - RO, Domingo, 21 de Abril de 2019

“A vida tem que continuar”, diz jovem que levou machadada em Suzano

De volta à casa da família, garoto quer retomar a rotina na escola Raul Brasil: “Precisamos impedir que massacres voltem a ocorrer”

Fonte: www.metropoles.com - Em Saúde - 17/03/2019 08:40:00 hrs

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“A vida tem que continuar”, diz jovem que levou machadada em Suzano

Enviado especial a Suzano (SP) – Alameda Armando Alcântara, Suzano. Foi para este endereço que um dos personagens mais emblemáticos do massacre no Colégio Estadual Raul Brasil, em que dois atiradores mataram 10 pessoas e feriram outras duas dezenas, voltou na manhã deste sábado (16/3). Sorridente, José Victor Ramos Lemos, de 18 anos, teve alta do hospital após dois dias internado. Ele era o menino visto nas filmagens correndo da escola com um machado cravado no ombro.

Subindo as escadas com cautela, José Victor reencontrou a família. A avó Dalva Pereira Ramos, de 73 anos, ao vê-lo, caiu no choro. “Eu sabia que você ia voltar. Eu acredito num Deus forte e que ele estendeu a mão sobre você na hora que aquilo aconteceu”, agradecia em oração.
O pai do menino, o enfermeiro Marco Antônio de Lemos, de 49 anos, e a mãe, a dona de casa Sandra Regina, de 49, respiravam aliviados. A família recebeu o Metrópoles junto do filho na sua casa para contar o que viveram nas 72 horas que sucederam o massacre desencadeado pelos ex-alunos da escola Guilherme Taucci Medeiros, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25.

A mãe do jovem lembra que foi a primeira a receber a notícia do ataque. Ao entrar no carro para sair a procura do filho, ela não sabia da gravidade do que tinha acontecido. “Eu estranhei a ligação do hospital. Pensei que ele tinha se machucado fazendo esporte. Mas quando sai de casa, percebi a movimentação dos helicópteros. Neste momento, caiu a ficha”, lembra.

Sandra conta que o trajeto da escola, apesar de curto, parecia demorar uma eternidade. “Eu dirigia e nunca chegava. Quando avistei a porta da escola, havia um amontoado de gente, polícia, ambulâncias e bombeiros. Tive a certeza que meu filho tinha morrido”, conta.

Mal sabia ela que, minutos antes, José Victor tinha travado uma luta pela vida. Um dos atiradores o atacou com um machado. A arma branca fincada no lado direito do corpo por pouco não tirou a sua vida. A machadinha ficou apenas a 3 cm de atingir uma artéria. Victor conta que o agressor só não o feriu mais porque o adolescente impediu que ele retirasse o instrumento do seu corpo.

O menino relembra o desespero de buscar ajuda e só encontrar o desamparo. “Eu corria pela rua pedindo ajuda, mas as pessoas me olhavam com estranheza e não reagiam. Eu gritava por ajuda. Muito rapidamente eu decidi correr para o hospital. Foi o que me salvou”, detalha.

Ao deixar o colégio, José Pinto viu mortos e muito sangue espalhado. Já sabia a dimensão do que havia acontecido. “Foi uma cena horrível. Estava todo mundo na cantina, era hora da merenda. O mais triste foi ver a tia (a funcionária Marilena Umezu) caída não chão”, lamenta.

Mesmo com a situação delicada, esse preocupava com os amigos. “Vi muita gente tentando pular o muro. Era uma gritaria grande. Muito corriam sem saber pra onde. Eu só queria saber como estava meus amigos e a minha namorada (uma garota de 16 anos, estudante do mesmo colégio)”, descreve.
Com a cidade em colapso, pais, amigos e parentes ficaram sem reação. “Todo mundo ficou desesperado. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Na busca por informações, muita gente descobriu que o filho tinha morrido ou estava gravemente ferido. Era a pior notícia”, lembra Marco Antônio, o pai.

Ao encontrar a Polícia Militar e entender o que estava havendo, Marco Antônio chegou a ver a arma que feriu o filho. “Ele [policial] foi ao carro e mostrou o machado embalado, não dava para ver muita coisa, mas era grande”, frisa, ao similar a dimensão com a mão.

Como pai do menino é enfermeiro, ele conseguiu localizar o filho. Já no hospital, o garoto havia passado pela cirurgia que salvou a sua vida. “Eu o vi quando ainda estava sedado no centro cirúrgico. O médico, um conhecido antigo trabalho, me tranquilizava, dizendo que ele estava bem e que apesar do ferimento não havia comprometido o braço dele”, detalha.

O coração da mãe, sem informações, sentia outra coisa. “Eu já imaginava meu filho sem braço. Pensava que ele não conseguiria se reabilitar. Graças a Deus ele está aqui: perfeito. Foi a melhor notícia que recebi! Saber que ele está bem é um alívio”, comemora.

José Victor terá que fazer sessões de fisioterapia. A recuperação completa estimada pela equipe médica é de 90 dias. O menino levou uma quantidade tão grande de pontos que nem a família sabe precisar o número exato.

Família em polvorosa
A movimentação no sobrado simples é intensa na volta de José Victor Ramos Lemos. A todo momento chegam primos, tios, amigos e outros conhecidos. A escada estreita ficou cheia de gente. A cada um que chega, lágrimas, sorrisos e abraços aliviados são trocados. Dona Dalva, uma mulher forte apesar da idade, se agitava para preparar o almoço. A felicidade a deixava perdida.

“Todos eles (netos) são muito mimados. Sou aquela avó carinhosa mesmo”, frisa para a reportagem, ao fazer um carinho neto, recém saído do hospital, que retribui com um sorriso.
Uma prima do jovem, de 20 anos, está morando em Buenos Aires, na Argentina. Ela estuda medicina. Eles conversaram por vídeo e a menina parecia muito preocupada e só queria saber como José Victor se sentia. Com sorriso que mesclava alegria e intimidade, ele resumia: “suave”.

Entre as prioridades do dia está cortar o cabelo e reencontrar a quadra de basquete. O sonho do menino é ser atleta do esporte. “Eu jogo desde os 11 anos. Gosto muito”, destaca. A paixão pelo time é tamanha, que José Victor trajava, no momento da entrevista, a camisa do time de basquete de Suzano.

Sem ressentimento
Mesmo depois do ataque à sua escola, José Victor está decidido a continuar estudando no Raul Brasil. Ele ainda não sabe quando visitará o cenário de um dos traumas mais sangrentos que o município, distante 50 km de São Paulo, viveu. “A vida tem que continuar. Temos que superar, passar por cima. Daqui a um tempo, isso será apenas uma lembrança triste”, comenta.

Será que um policial armado na porta da escola teria evitado isso? Será que se eles tivessem sido acompanhados isso teria sido diferente? Eu não sei. Mas alguma coisa tem que ser feita para que essa história não se repita nunca mais"José Victor Ramos Lemos, sobrevivente do ataque de Suzano
A família encerra a entrevista mostrando um grande quadro de fotografias preso na parede da sala. Ali, muitos espaços em branco começam a ser preenchidos hoje. O que eles querem tem nome. Paz. Desejam que ela não fique presa apenas no muro daquele sobrado, mas que atinja a todos. “Tem que seguir em frente”, diz o menino, que sorri com a alma.

Crime e polícia 
Segundo as autoridades locais, a chegada da polícia na cena do massacre evitou que os criminosos matassem e ferissem mais gente (23 pessoas foram atendidas em hospitais da região). As investigações apontam que a dupla criminosa planejou o massacre durante um ano.

Imagens captadas por câmeras de segurança da rua onde fica a escola e da entrada da unidade de ensino mostram os criminosos chegando ao local e o ataque às vítimas. Após Guilherme Taucci Medeiros atirar contra alunos e funcionários, Luiz Henrique de Castro atingia com golpes de machado quem já estava no chão.

Quem eram 
Os dois responsáveis pelo massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), eram ex-alunos do colégio e usaram armas atípicas para atacar estudantes e funcionários. O crime aconteceu no horário do intervalo, por volta de 9h30, quando os alunos estavam fora das salas. Dez pessoas morreram – incluindo os autores e o tio de um deles, que não estava no colégio).

Os criminosos foram identificados como Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25. O aniversário de Luiz Henrique seria no próximo dia 16, quando ele faria 26 anos. Já Monteiro atingiria a maioridade no dia 5 de julho.

O veículo que foi utilizado no massacre foi roubado da concessionária do tio de Guilherme morto antes de os assassinos irem ao colégio. Tanto o comerciante quanto a dupla de executores foram sepultados nessa quinta 

Relatos
Sobreviventes contaram ao Metrópoles terem passado ao lado de corpos de amigos para escaparem da fúria dos criminosos. Um estudante chegou ao hospital mais próximo ainda com o machado usado por Luiz Henrique cravado no ombro. A notícia de que havia algo errado na escola, onde boa parte da população estudou ou tem algum conhecido matriculado, se espalhou rapidamente. Desesperados,familiares também correram para o colégio à procura de suas crianças.

Apelos pela paz
Antes mesmo da divulgação de que outras pessoas poderiam estar envolvidas no crime e circulando pela cidade, o medo de novos ataques já dominava os moradores de Suzano. A comunidade tem se unido em oração – antes dos velórios e sepultamentos, participaram de missa e vigília em frente à Escola Estadual Raul Brasil. Lá deixaram flores, velas e mensagens em honra aos mortos e feridos na tragédia.

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