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Fonte: Folha de S. Paulo - Em Política - 28/05/2020 10:52:00 hrs

Um dia após uma operação policial ordenada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) ter atingido empresários, políticos e ativistas bolsonaristas, o presidente Jair Bolsonaro criticou a investigação e disparou queixas contra a corte.
“Não teremos outro dia como ontem, chega”, disse, na saída do Palácio da Alvorada, em declaração transmitida pela rede CNN Brasil e nas redes sociais do presidente. “Querem tirar a mídia que eu tenho a meu favor sob o argumento mentiroso de fake news.”
Em outro trecho, Bolsonaro afirmou ter em mãos as “armas da democracia”. E disse que "ordens absurdas não se cumprem" e que "temos que botar limites".
Quando os repórteres que estavam no local tentaram questioná-lo a que ordens estava se referindo, o mandatário se recusou a responder, disse que não estava concedendo uma entrevista e que os profissionais poderiam ir embora se não quisessem ouvi-lo.
Ontem, a PF cumpriu 29 mandados de busca e apreensão no inquérito das fake news, que apura ofensas, ataques e ameaças contra ministros do Supremo. Políticos, empresários e ativistas que apoiam o presidente estão entre os alvos da investigação.
Na fala desta quinta-feira (28), o presidente adotou um tom duro contra o inquérito das fake news que corre no tribunal, embora não tenha citado em nenhum momento o ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo procedimento que apura ofensas, ataques e ameaças contra integrantes do STF.
O presidente disse que o termo "gabinete do ódio" (apelido dado a um grupo de servidores da Presidência da República que atuaria na disseminação de notícias falsas e no ataque a reputações de autoridades) foi "inventado" e defendeu enfaticamente a rede de apoio que tem nas mídias sociais.
"Mais um dia triste na nossa história. Mas o povo tenha certeza, foi o último. Queremos paz, harmonia, independência e respeito. E democracia acima de tudo. A liberdade de expressão é algo sagrado entre vocês [imprensa] e também entre a mídia alternativa. Não podemos ficar apenas tendo a nossa disposição um lado, a tradicional ou a mídia social. Os dois lados vão conviver", afirmou.
"Idiotas inventaram [a expressão] gabinete do ódio. Outros imbecis inventaram matérias disso e lamento julgamento em cima disso", afirmou.
Referindo-se ao inquérito, Bolsonaro afirmou ainda que um processo não pode começar "em cima de factoides e fake news". Para Bolsonaro, a ação da PF ordenada pelo Supremo foi uma "invasão de casas de pessoas inocentes", o que é "inadmissível".
"Ontem trabalhamos o dia todo numa coisa, ouvindo quem teve sua propriedade privada violada. São chefes de família, homens, mulheres, que foram surpreendidos pela Polícia Federal, que estava cumprindo ordens batendo em sua casa. Nunca tive a intenção de controlar a PF. Ordens absurdas não se cumprem. Nós temos que botar um limite nestas questões", declarou.
Em um dos trechos mais exaltados de sua fala na manhã desta quinta, quando não permitiu perguntas de jornalistas que estavam no local, Bolsonaro gritou: "Acabou, porra!".
"Ninguém mais do que eu tem demonstrado que tem o compromisso com a democracia, com a liberdade. As coisas tem um limite. Ontem foi o último dia. Eu peço a Deus que ilumine as poucas pessoas que ousam se julgar melhor e mais poderosas que os outros, que se coloquem em seu devido lugar. Não podemos falar em democracia sem um judiciário independente, sem um legislativo independente, para que possam tomar decisões, de modo que seja ouvi o colegiado. Acabou, porra. Não dá pra adimitir mais atitudes de certas pessoas individuais, tomando de forma quase que pessoal certas ações. Somos um país livre, e vamos continuar livres. Eu peço a todos meus colegas, companheiros de outros poderes e do meu poder também. Vamos buscar entendimento. Não vamos admitir que individualmente, uma ou outra pessoa tome decições em nome de outras. Respeito o STF, respeito o Congresso nacional. Tem que respeitar o poder executivo também. É o minimo que se espera", declarou.
Na decisão em que autorizou a Polícia Federal a cumprir mandados de busca e apreensão contra os alvos do inquérito das fake news, Moraes diz, com base nos relatos de congressistas, que os investigados teriam ligações com o chamado 'gabinete do ódio'.
A deflagração da operação irritou Bolsonaro, que convocou uma reunião de ministros na tarde de quarta para traçar uma reação à corte.
Uma das primeiras ações do governo já foi tomada. O ministro André Mendonça (Justiça) ingressou com um pedido de habeas corpus para Abraham Weintraub (Educação) a fim de "garantir liberdade de expressão dos cidadãos".
Com o pedido de habeas corpus, a ideia é impedir a prisão ou outra medida cautelar contra Weintraub no caso de ele se recusar a cumprir a determinação do STF de prestar depoimento. Em reunião ministerial em 22 de abril, o ministro disse que "colocaria todos esses vagabundos na cadeia, começando no STF".
Bolsonaro acusou ainda uma tentativa de "censurar as mídias sociais" e destacou que a mobilização nessas plataformas lhe garantiram a eleição em 2018. "A mídia social me trouxe à presidência. Sem ela, não estaria aqui", declarou.
Apesar dos ataques a Moraes e às decisões individuais da corte, Bolsonaro disse que está disposto a conversar com qualquer autoridade do Judiciário ou do Legislativo para promover a harmonia entre os poderes. "Respeito o STF e respeito o Congresso. Mas para esse respeito continuar sendo oferecido da nossa parte, tem que respeitar o Poder Executivo também".
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