Rolim de Moura - RO, Segunda-Feira, 31 de Agosto de 2026 - 00:00

'Tem mulher apanhando em casa porque em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão' diz Bolsonaro

Usando seu linguajar costumeiro, disse que é preciso poupar vidas, mas que todos vão morrer um dia. E sem comprovação estatística, disse que a mulher apanha em casa por falta de pão

Fonte: G1 - Em Política - 29/03/2020 09:04:00 hrs

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Reprodução

Um dia depois de o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, dizer que as pessoas devem permanecer em casa, em isolamento social, para evitar a disseminação do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro saiu de carro da residência oficial do Palácio da Alvorada, na manhã deste domingo (29), para fazer um passeio por Brasília.

Ele foi a uma farmácia e a uma padaria no bairro Sudoeste, em Brasília, depois ao Hospital das Forças Armadas e ao centro de Ceilândia, uma das regiões administrativas do Distrito Federal.

Nas ruas, a presença do presidente provocou pequenas aglomerações. No Sudoeste, ouviu grito de "Abre o comércio, presidente". Uma mulher fez um apelo por isolamento. "Isolamento para nós, hein? Sem isolamento, a gente não vai conseguir". Outros desejaram boa sorte. "Presidente, Deus te ilumine".

Do Sudoeste, Bolsonaro seguiu para o Hospital das Forças Armadas. Na saída, se aproximou de pessoas e fez fotos, juntando o rosto ao de apoiadores que o aguardavam do lado de fora.

Bolsonaro volta a se posicionar contra o isolamento social

Na volta do passeio que fez às localidades ao redor de Brasília, neste domingo (29), o presidente Jair Bolsonaro voltou a se posicionar contra o isolamento social mais geral, defendido por autoridades de saúde do mundo inteiro.

Defendeu apenas o isolamento de idosos e de grupos de risco. Usando seu linguajar costumeiro, disse que é preciso poupar vidas, mas que todos vão morrer um dia. E que é preciso atenção para o impacto da pandemia na economia.

Temos um problema do vírus? Temos. Ninguém nega isso daí. Devemos tomar os devidos cuidados com os mais velhos, com as pessoas do grupo de risco. Agora, o emprego é essencial.

Essa é uma realidade, o vírus 'tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia. Queremos poupar a vida? Queremos. Na parte da economia, o Paulo Guedes 'tá gastando dezenas de bilhões de reais, que é do Orçamento, que é dinheiro do povo, se bem que nem dinheiro é. Pegamos autorização do Congresso para estourar o teto, que vai ser paga essa conta lá na frente."

O presidente justificou seu passeio alegando que foi conhecer as necessidades do povo. Disse que não anunciou sua visita previamente, mas não comentou o fato de que a simples presença de um presidente atrai aglomerações, condenadas pelas autoridades de saúde porque aumentam a chance de contágio.

Hoje é domingo, tem pouca gente na rua. Agora, eu não marquei nada em lugar nenhum. Foi tudo de forma inopinada. Vamos lá. Entra aqui, para aqui, já 'tava o povo lá dentro. Eu não juntei ninguém. 'Ah, junta aí, vamos fazer um oba-oba'. Nada disso. Fui reconhecido. Não teve nenhum grito por parte da população."

Bolsonaro afirmou que é contra o isolamento mais geral porque os trabalhadores precisam ganhar o seu sustento. Mas, em outra parte, lembrou que o governo e a Câmara aprovaram uma ajuda de R$ 600 por três meses a ser paga aos informais, limitada a dois membros de cada família. Não comentou o que especialistas vêm dizendo: que, se essa ajuda é considerada insuficiente, cabe apenas a ele, presidente, aumentá-la de forma emergencial, como chefes de estado de todo o mundo vêm fazendo.

"Nós vai (sic) condenar esse cara a ir pra dentro de casa? Ficar dentro de casa, ele não tem poupança, não tem renda. A geladeira dele, se tiver, já acabou a comida, porque tem que trabalhar. Tem que sustentar a família. Tem que cuidar dos seus filhos. Temos um problema mais sério no momento. Essas pessoas informais, que nunca tiveram voz em lugar nenhum, tiveram agora que arranjar R$ 600 para eles".

As autoridades sanitárias do mundo inteiro defendem que todos os que puderem fiquem em casa para diminuir os riscos de quem tem de trabalhar, como aqueles de setores essenciais, como saúde, transportes e fábricas, entre outros. Bolsonaro, porém, insiste num isolamento mais restrito, apenas de idosos e doentes crônicos. E deu um argumento, no mínimo, polêmico e sem comprovação estatística:

"Tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? O cara quer trabalhar, meu Deus do céu. É crime trabalhar?"

Twitter apaga publicações de Bolsonaro por violarem regras

O Twitter apagou duas publicações da conta oficial do presidente Jair Bolsonaro na noite deste domingo (29). No lugar das publicações, feitas na tarde de domingo, aparece a mensagem: "Este tweet não está mais disponível porque violou as regras do Twitter".

O post apagado foi o da caminhada do presidente nos arredores de Brasília, gerando aglomeração de pessoas, contrariando orientações de autoridades de saúde em todo o mundo.

Em um dos vídeos apagados, Bolsonaro conversa com um ambulante, defende que as pessoas continuem trabalhando, e diz para "quem tem mais de 65 ficar em casa". Ele acena positivamente quando uma das pessoas na aglomeração diz que "tem que abrir os comércios e trabalhar normalmente".

No segundo vídeo, ele entra em um supermercado, volta a provocar aglomerações, critica as medidas de isolamento e diz para jornalistas que "o país fica imune quando 60, 70% foram infectados" e que um remédio contra o coronavírus "já é uma realidade", sem apresentar comprovação.

Em nota, o Twitter disse que "anunciou recentemente em todo o mundo a expansão de suas regras para abranger conteúdos que forem eventualmente contra informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais e que possam colocar as pessoas em maior risco de transmitir COVID-19."

O Planalto diz que não vai comentar.

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